Serendipidade

Serendipidade é a arte dos encontros improváveis que transformam.

Fui apresentado a esse conceito pelo meu sócio Lucas Schwantes, em 2014 — e desde então, ele nunca mais saiu do meu radar. Quanto mais o tempo passa, mais percebo como a serendipidade está em toda parte: nas relações, nas escolhas, nos caminhos da vida e dos negócios.

Neste artigo, te convido a perceber como a serendipidade está mais presente do que imaginamos no nosso dia a dia — e como ela pode se tornar uma aliada sutil e poderosa na forma como marcas criam conexões reais. como a serendipidade está mais presente do que imaginamos no nosso dia a dia.

1. O que é serendipidade?

Existe algo de profundamente humano em encontrar o que não se procurava. Uma rua nova no caminho de sempre. Um livro esquecido que desperta algo antigo. Uma conversa inesperada que muda o rumo do dia. Isso é serendipidade.

O termo vem de um conto persa, "Os Três Príncipes de Serendip", cujos protagonistas faziam descobertas felizes sem procurá-las. Mas mais do que sorte, a serendipidade é um estado de abertura. Uma mistura de atenção e entrega. No branding, isso significa criar espaços de descoberta, encantamento e conexão emocional que não dependem da busca racional.

Serendipidade é o momento em que a marca toca um lugar interno sem pedir permissão. E deixa algo ali.

2. Serendipidade não é sorte: é orquestração invisível

Quando você descobre uma música que te toca profundamente em uma playlist aleatória, ou encontra uma loja encantadora escondida em uma rua secundária, está vivenciando a serendipidade. Mas por trás desse acaso, há curadoria, inteligência de contexto e design.

O mesmo vale para marcas. Um nome que parece "perfeito" à primeira vista, um showroom com um aroma inesperado, um brinde que emociona sem aviso. Tudo isso é construído com intencionalidade.

Exemplos:

  • Spotify Discover Weekly: algoritmos e comportamento gerando encontros musicais inesperados.

  • Urbanismo tático: pequenas intervenções urbanas que provocam surpresa e conexão.

  • Pinterest: interface pensada para descobertas sem rumo definido.

Esses encontros não programados, mas preparados, são aqueles que geram memória emocional. E isso é ouro no branding.

3. Como aplicar no branding imobiliário?

a) Showrooms e experiência física
Crie momentos não anunciados, com delicadeza e inteligência. Por exemplo:

  • Um espelho posicionado em um corredor de passagem, que revela uma frase inspiradora apenas sob determinada luz.

  • Uma poltrona estratégica junto a uma janela real de sol nascente, convidando o visitante a se imaginar ali sem que isso precise ser dito.

  • Um pequeno livro deixado intencionalmente aberto em uma página que fala sobre novos começos.

  • Aromas que mudam suavemente de acordo com o ambiente percorrido, gerando uma jornada olfativa quase imperceptível.

São pequenos encantos que dizem, silenciosamente: "nós imaginamos você aqui, antes mesmo de você chegar".

b) Naming e identidade
Nomes que soam familiares, mas guardam uma segunda camada. Aqueles que fazem a pessoa pensar: "nunca tinha ouvido isso antes, mas tem algo aqui".

c) Storytelling do projeto
Narrativas com vazios intencionais, que convidam o público a completar a história com suas próprias memórias ou desejos.

d) Conteúdo e redes sociais
Menos previsibilidade, mais provocação. Posts que parecem casuais, mas criam uma linha de conexão emocional forte com o público. Uma frase, uma imagem, um gesto que faz o leitor sorrir sem saber bem por quê.

4. Marcas que dominam a arte do acaso

  • Aesop: cada loja é única, com arquitetura feita para o contexto local. A descoberta é parte da experiência.

  • Ace Hotel: cria espaços com micro-surpresas, como cartas escritas à mão, livros raros, playlists únicas.

  • Muji: a simplicidade dos objetos convida o consumidor a imaginar seus usos, provocando conexões inesperadas.

5. Conclusão

Em um mercado saturado de promessas diretas e campanhas ruidosas, talvez o melhor caminho para se destacar não seja ser o mais óbvio, e sim o mais descoberto. A serendipidade não é uma força aleatória, é uma competência criativa. E como toda competência, ela pode ser projetada, refinada e colocada a serviço da marca.

Porque no fim, as melhores marcas não são lembradas apenas pelo que dizem. Mas por aquilo que fazem a gente sentir, sem a gente esperar.


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