Equilíbrio de Nash
Uma lente da teoria dos jogos para pensar posicionamento de marca no mercado imobiliário.
Em Uma Mente Brilhante, há uma cena num bar que ficou mais famosa do que qualquer equação. John Nash está com os amigos quando um grupo de mulheres entra. Todos querem abordar a mais bonita. Nash para, observa, e chega a uma conclusão que contraria a lógica convencional: se todos forem atrás dela, ninguém consegue nada. E as outras, sentindo-se segunda opção, também recusam. O resultado mais inteligente, percebe Nash, é nenhum deles ir atrás da mais bonita.
Os economistas reclamam da simplificação. A cena não é uma demonstração rigorosa da teoria. Mas ela ficou na memória coletiva porque captura algo verdadeiro: em situações de competição, a estratégia que parece mais racional para cada indivíduo pode produzir um resultado que não é o melhor para ninguém.
Nash formalizou isso matematicamente em 1950, aos 21 anos, numa dissertação de 27 páginas. O conceito central é o equilíbrio que leva seu nome: um estado em que nenhum jogador tem incentivo para mudar de estratégia, dado o que os outros estão fazendo. Não é necessariamente o melhor resultado possível. É o resultado estável.
Estável e ótimo são coisas diferentes. Essa distinção é o que torna o conceito tão útil para pensar sobre branding.
Uma observação sobre o mercado
Observe o material de lançamento de dez incorporadoras diferentes em qualquer cidade brasileira de médio ou grande porte. Leia os textos de posicionamento, os atributos comunicados, as promessas de marca.
É provável que você encontre, com variações cosméticas, um conjunto muito parecido de palavras: qualidade de vida, localização privilegiada, arquitetura sofisticada, inovação, bem-estar. As mesmas promessas. Visuais semelhantes. Públicos imaginados de forma muito parecida.
A teoria dos jogos oferece uma explicação para esse fenômeno que vai além da crítica fácil. Não se trata de falta de criatividade ou coragem. Trata-se de racionalidade individual produzindo convergência coletiva.
Cada incorporadora, observando o que funciona no mercado, tende a replicar o que outros já validaram. É a estratégia individualmente mais segura. O resultado agregado é o equilíbrio de Nash: um estado estável onde ninguém tem incentivo para mudar sozinho, porque mudar sozinho parece arriscado.
A pergunta que Nash nos convida a fazer não é se esse equilíbrio existe, mas se ele é o melhor resultado disponível.
O que acontece quando todos jogam igual
Quando os atributos comunicados convergem, o comprador enfrenta uma dificuldade real: como distinguir entre as opções disponíveis? Sem distinção clara, a decisão tende a migrar para os critérios mais objetivos e comparáveis, preço, prazo, localização exata.
Isso não é necessariamente ruim para o comprador. Mas coloca uma questão interessante para as incorporadoras: quando o mercado converge para os mesmos atributos, quais são os critérios que ainda diferenciam uma marca de outra na percepção de quem compra?
Há também uma dimensão de acumulação. Uma marca com posicionamento claro e consistente tende a construir percepção ao longo do tempo, cada lançamento reforçando o anterior. Quando o posicionamento é difuso ou genérico, cada lançamento começa um trabalho de percepção que poderia ter sido feito antes.
Não é uma afirmação sobre certo ou errado. É uma observação sobre como a percepção se acumula, ou não.
Como o equilíbrio se desloca
Nash também nos diz algo sobre como os equilíbrios mudam. Um equilíbrio se mantém enquanto todos os jogadores acreditam que os outros vão continuar fazendo o que sempre fizeram. Quando um jogador muda de forma consistente e sustentada, os incentivos dos demais se alteram. O equilíbrio se desloca.
No mercado imobiliário, algumas incorporadoras construíram ao longo do tempo um ponto de vista genuíno sobre urbanismo, arquitetura, comunidade ou produto. Não com um único movimento disruptivo, mas com consistência acumulada. O efeito, quando acontece, é que o mercado passa a usar os critérios dessas marcas como referência.
É um processo longo. E exige uma escolha que muitos preferem adiar: decidir o que a marca não vai ser, tanto quanto o que ela vai ser.
O que Nash não resolveu, e que cabe a cada um resolver
A teoria dos jogos descreve o que acontece. Não prescreve o que fazer. Nash identificou o equilíbrio, mas a decisão de permanecer nele ou buscar outro ponto é de cada jogador.
No branding imobiliário, a questão prática é menos sobre teoria e mais sobre escolha estratégica: em qual dimensão uma incorporadora tem condições reais de construir algo genuíno e sustentável ao longo do tempo? Não apenas diferente, mas profundo o suficiente para resistir à convergência que o mercado naturalmente produz.
Essa pergunta não tem resposta universal. Depende do histórico, da vocação, do produto, do território. Mas é a pergunta certa.
Nash resolveu a matemática do equilíbrio aos 21 anos numa dissertação de 27 páginas. A aplicação disso no posicionamento de marca é um trabalho que cada incorporadora precisa fazer por conta própria.
Algumas perguntas para refletir
Quais atributos de marca a sua incorporadora compartilha com a maioria dos concorrentes?
Em qual dimensão você teria condições de construir algo genuinamente diferente ao longo do tempo?
O seu posicionamento acumula percepção a cada lançamento, ou recomeça do zero?
Quando o mercado se adaptar ao seu movimento, onde você estará?
Equilíbrio de Nash não é um julgamento. É uma lente. O que cada um enxerga através dela depende de onde está olhando.
Rafael Neves é estrategista de branding para o mercado imobiliário e fundador da NVSLAB.